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O Avesso

Prólogo — O Avesso

Prólogo

A mulher sabia que escreveriam que ela teve medo.

 

Não tinha.

 

Medo era uma coisa diferente. Tinha sentido medo muitas vezes na vida e aprendera a reconhecê-lo no corpo: a boca seca, o coração acelerado, aquela urgência animal de correr mesmo quando não havia para onde.

 

Naquela noite, porém, seu coração batia devagar.

 

Talvez porque já tivesse feito a única coisa que ainda podia fazer.

 

Talvez porque, depois de uma escolha verdadeira, o medo servisse para muito pouco.

 

— Ande.

 

Ela obedeceu.

 

As pedras estavam frias sob seus pés.

 

Não usava sapatos. Tinham levado os seus antes de atravessarem o primeiro portão, assim como haviam levado os anéis, o casaco e o pequeno cordão que carregara no pescoço durante quase toda a vida. A barra do vestido claro estava úmida de terra e agarrava-se às pernas a cada passo. Os cabelos, longos e escuros, haviam sido presos às pressas antes de a buscarem, embora várias mechas já tivessem escapado e colassem em seu rosto. Não tentou afastá-las.

 

Não levaram a música.

 

Ela ainda podia ouvi-la.

 

Baixa.

 

Distante.

 

Sem instrumentos.

 

As vozes vinham de algum ponto além das árvores, embora ela soubesse que não havia ninguém na floresta àquela hora.

 

Pelo menos ninguém que eles pudessem ver.

 

A mulher sorriu.

 

— O que é engraçado?

 

Ela olhou por cima do ombro.

 

O homem que a acompanhava mantinha uma das mãos sobre o cabo da arma presa à cintura.

 

Não precisava.

 

Ela não pretendia fugir.

 

— Nada.

 

— Continue andando.

 

O caminho terminava diante de uma construção de pedra tão antiga que as raízes das árvores já não pareciam crescer ao redor dela, mas através dela.

 

Não havia porta porque nunca houvera.

 

A mulher passou a mão pela superfície úmida.

 

Por um instante, as marcas gravadas na pedra apareceram sob seus dedos.

 

O homem atrás dela recuou.

 

Só meio passo, mas foi o suficiente para que ela percebesse.

 

— Ainda tem medo delas?

 

— Não — respondeu de forma seca.

 

— Claro.

 

As marcas desapareceram.

 

Ele não respondeu.

 

Continuaram.

 

Do outro lado, sete pessoas esperavam das quais a mulher conhecia cinco.

 

Uma delas havia segurado sua mão quando seu primeiro filho nasceu.

 

Outra tinha bebido à sua mesa.

 

Um terceiro conhecia segredos que ela jamais contara ao próprio marido.

 

Nenhum sustentou seu olhar por muito tempo.

 

Isso, finalmente, doeu.

 

No centro do recinto havia uma mesa.

 

Sobre ela, um livro.

 

E ao lado do livro, quase insignificante diante de tudo que ocupava aquele lugar, uma pequena caixa de madeira escura.

 

A mulher não olhou para a caixa.

 

Era importante não olhar.

 

— Você sabe por que está aqui.

 

A voz veio do outro lado da mesa.

 

Ela conhecia aquela voz também.

 

— Sei por que vocês dizem que estou aqui.

 

— Ainda faz diferença?

 

— Para mim.

 

O homem abriu o livro.

 

As páginas se moveram sozinhas até encontrar o lugar correto.

 

Ela quase riu.

 

Até o livro obedecia.

 

— Você quebrou o juramento.

 

— Sim.

 

Um murmúrio percorreu o recinto.

 

— Admite?

 

— Não imaginei que essa parte estivesse em discussão.

 

— Você revelou aquilo que jurou proteger.

 

— Não.

 

Dessa vez sua voz saiu mais firme.

 

O homem ergueu os olhos.

 

— Não?

 

— Eu revelei aquilo que vocês juraram esconder.

 

O silêncio que veio depois pareceu diferente.

 

Até a música cessou.

 

A mulher sentiu falta dela imediatamente.

 

— Cuidado.

 

— Com o quê?

 

— Com suas palavras.

 

Ela sorriu.

 

— São justamente elas que parecem assustar vocês.

 

Uma das mulheres à esquerda desviou os olhos e aquilo foi suficiente.

 

Ainda havia dúvida.

 

Bom. Muito bom.

 

Dúvida era uma coisa pequena.

 

Mas coisas pequenas tinham o inconveniente de crescer, como bem aprendera.

 

— Houve uma ordem — disse o homem.

 

— Houve uma decisão — ela rebateu prontamente.

 

— Houve um juramento.

 

— Houve medo — a mulher insistiu.

 

— Houve necessidade.

 

A mulher olhou para o livro aberto.

 

— É assim que vocês chamam agora?

 

O homem fechou a mão sobre a página.

 

— Você estava lá.

 

— Estava.

 

— Então sabe o que aconteceu.

 

— Sei.

 

— Sabe o que aconteceria se permitíssemos que acontecesse novamente.

 

Ela demorou antes de responder.

 

— Não.

 

Pela primeira vez, alguma coisa mudou no rosto dele.

 

Muito pouco.

 

Mas ela viu.

 

— Nenhum de vocês sabe.

 

— Sabemos o suficiente.

 

— Essa sempre foi a frase favorita dos homens que escreveram a história.

 

Uma das pessoas ao redor da mesa respirou fundo.

 

— Chega.

 

A mulher virou o rosto na direção da voz.

 

— Não. Ainda não.

 

Então olhou novamente para o homem diante dela.

 

— Vocês vão escrever que foi diferente.

 

Ninguém respondeu.

 

— Vão escrever que nós perdemos o controle. Que não suportamos o que recebemos. Talvez digam que adoecemos. — Ela inclinou levemente a cabeça. — Loucura é uma palavra conveniente. Sempre foi.

 

— Ninguém está falando em loucura.

 

— Ainda.

 

Silêncio.

 

A música voltou.

 

Tão baixa que, por um instante, ela achou que apenas ela pudesse ouvi-la.

 

Talvez fosse verdade.

 

— Você deveria ter escolhido — disse o homem.

 

A mulher o encarou.

 

Dessa vez sorriu de verdade.

 

— Eu escolhi.

 

— Então sabe o que acontece agora.

 

— Sei o que vocês dizem que acontece agora.

 

Ele fechou o livro.

 

O som ecoou entre as pedras.

 

— Não haverá registro do seu nome.

 

Ela sentiu alguma coisa apertar dentro do peito.

 

Não medo.

 

Talvez tristeza.

 

Havia coisas das quais ainda era difícil abrir mão.

 

O próprio nome era uma delas.

 

— Seus atos serão retirados dos arquivos. Seus ensinamentos, destruídos. Tudo que escreveu será recolhido.

 

Ela olhou para as cinco pessoas que conhecia.

 

Nenhuma a encarava agora.

 

— Seus descendentes não saberão quem você foi.

 

Dessa vez ela riu.

 

Baixo.

 

O homem franziu a testa.

 

— Por que está rindo?

 

— Porque vocês ainda acham que é assim que a memória funciona.

 

Ele não respondeu.

 

A mulher finalmente olhou para a caixa.

 

Apenas por um instante.

 

Madeira escura. Fechada. Nada de especial à primeira vista.

 

Quando voltou os olhos para o homem, ele não parecia ter percebido.

 

Bom.

 

— Ninguém se lembrará de você — disse ele.

 

A música aumentou. Primeiro uma voz. Depois outra. Depois tantas que ela já não conseguia distingui-las.

 

A mulher fechou os olhos. E viu árvores, pedra, uma casa que ainda não existia.

 

Uma menina... Não. Muitas. Mulheres que jamais conheceria: algumas jovens, algumas velhas, algumas com filhos nos braços e outras completamente sozinhas.

 

Viu cidades onde deveriam existir florestas.

 

Torres de vidro erguidas sobre pedras que ninguém mais lembrava terem nome.

 

Viu luzes sem fogo, carruagens sem animais.

 

Viu uma mulher diante de uma janela. Por um instante, quase conseguiu ver seu rosto e então... tudo desapareceu.

 

A mulher abriu os olhos.

 

O homem ainda estava esperando sua resposta.

 

— Não preciso que se lembrem de mim.

 

A música parou.

 

Ela respirou fundo.

 

— Só preciso que alguma de nós se lembre.

 

Alguma coisa se moveu dentro da caixa.

 

Dessa vez, todos ouviram.

Kim — escrita e outras histórias

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